Segurança é ponto nevrálgico em São Miguel do Gostoso

Segurança é ponto nevrálgico em São Miguel do Gostoso

Praia do Maceió, pouco antes da abordagem dos marginais - www.viajandocomaman.com.br - Foto: Amandina Morbeck.
Praia do Maceió – Foto: Amandina Morbeck.

Este texto é longo, mas acho importante relatar detalhadamente o que aconteceu, pois segurança é ponto nevrálgico em São Miguel do Gostoso.

Era uma manhã ensolarada de sexta-feira, em maio/2012, quando começamos a caminhar na Praia da Xêpa em direção à do Maceió – no dia anterior, havíamos conhecido a do Cardeiro e a de Tourinhos. Passamos por várias pessoas caminhando também e por alguns pescadores jogando futebol.

Fotografando, brincando, conversando e curtindo o visual, entramos no mar em alguns pontos para um mergulho. Tudo estava perfeito: beleza natural, clima quente, céu azul, sossego, ar puro. Até que, caminhando de volta ao ponto de onde havíamos saído, olhei para trás para falar alguma coisa com minha amiga quando vi dois caras bem próximos a ela, ambos com os rostos cobertos, caminhando em passos rápidos e cada um segurando um porrete.

O que tinha a pela clara andava com os joelhos flexionados, segurando o porrete com as duas mãos, como se estivesse pronto para atingi-la pelas costas. O outro, negro, vinha um pouco mais atrás dele.

Gritei para ela se virar e nesse momento eles se aproximaram rapidamente. Assustada, pedi que não nos machucassem. Pelo físico, ambos eram bem jovens. O de pele branca pediu minha câmera. Entreguei sem questionar (as fotos que sobraram foram do celular) e ele falou para minha amiga entregar a dela também. Nisso, o outro veio com o porrete para o alto e ficou do lado dela.

Depois, o branco perguntou se tínhamos dinheiro. Respondi que não. Na mochilinha que minha amiga carregava estavam nossos celulares, a chave do carro e uns trocadinhos para comprarmos água. Ele disse para nos mandarmos. Com muito medo, começamos a correr com todas as forças. Eles também correram em direção à duna, de onde provavelmente saíram.

Corremos até não conseguirmos mais, com aquele pavor de eles voltarem. Poderíamos ter sido seriamente machucadas e/ou violentadas e ninguém teria visto. Estávamos um pouco distantes do grupo de pescadores pelo qual havíamos passado e que jogavam bola na praia.

Continuamos andando a passos rápidos, mesmo quando sentimos que estávamos mais seguras, até o ponto onde havíamos deixado o carro. Procuramos o posto da polícia e o encontramos a partir de informações dos moradores. Chegando lá, estava fechado. Voltamos para a Pousada Enseada dos Amores e contamos o ocorrido à recepcionista. Mostrando-se surpresa e repetindo que aquilo nunca havia acontecido antes, disse que ligaria para a polícia em Touros, a cidade mais próxima, para ver o que deveríamos fazer. E a resposta foi que deveríamos ir ao posto policial de lá até às 17h. Se não chegássemos até esse horário, só na segunda-feira (quando já teríamos deixado a região).

Depois de tomarmos banho e almoçarmos, pois não sabíamos quanto tempo gastaríamos em Touros, dirigimos até lá. Passava um pouco das 16h e as polícias civil e militar ficam em prédios vizinhos. Como não sabíamos o que devíamos procurar, entramos no da militar e perguntei ao atendente onde podíamos fazer um B.O. Sem nem perguntar o motivo, ele disse que era no prédio do lado, mas que já estava fechado.

Surpresas, porque ainda faltava bastante para as 17h, saímos sem saber o que fazer. Voltamos para São Miguel sem termos feito o B.O., ou seja, o que aconteceu conosco não entrou nas estatísticas. Na cidade, resolvi falar com o morador da última casa da avenida principal, cujo fundo dá para a praia mais ou menos na altura de onde fomos assaltadas.

Luiz estava na porta e contei a ele o ocorrido, pedindo que se ele visse algum movimento estranho ou alguém tentando vender uma câmera como a minha, que avisasse na pousada. Então, ele nos contou que menos de um mês antes duas turistas haviam sido assaltadas na praia também durante o dia. Levamos um susto, pois ninguém havia mencionado nada para nós – nem na pousada nem no restaurante onde almoçamos no primeiro dia, justamente na Praia do Cardeiro onde as mulheres haviam sido assaltadas. Era só dar um toque para nos cuidarmos, pois a beleza e o sossego da cidade e de seus arredores realmente passam a impressão de que ali é um paraíso e que estamos seguras.

Luiz ainda nos contou que na semana anterior haviam roubado material e equipamentos de uma pousada em construção ao lado de sua casa e que o prejuízo da proprietária passava de R$ 3.000,00. Saindo dali, paramos num bar e conversamos com o proprietário e uma senhora. Ele confirmou o assalto às turistas e disse que roubos aconteciam sistematicamente na cidade, atingindo turistas e moradores; a mulher contou que havia sofrido uma tentativa de assalto na Rua Dourado quando voltava do trabalho.

Quanta coisa para uma cidade tão pequena!

No dia seguinte, fomos fazer passeio de buggy e contei ao motorista o que tinha acontecido e ele também mostrou-se muito “surpreso”, com o mesmo comentário de que “isso nunca havia acontecido antes”. No passeio, um casal do Rio Grande do Sul contou que no dia anterior havia andado por toda a Praia de Tourinhos (onde, depois que voltei pra São Paulo, descobri que um turista foi assaltado) e o quanto havia sido maravilhoso, que o lugar era lindo e tudo o mais. Esperei voltarmos do passeio para compartilhar com eles o que nos tinha acontecido.

Eles ficaram chocados, pensando no risco que haviam corrido, e confirmaram que na pousada onde ficaram ninguém havia mencionado nada a respeito de eles tomarem cuidado. Ironicamente, só depois que cheguei de volta a São Paulo e fiz pesquisas pela internet, descobri que era a mesma pousada na qual as duas turistas assaltadas ficaram hospedadas em fevereiro e que foram ajudadas pelo proprietário para conseguirem voltar pra casa, já que perderam tudo… E as pessoas continuavam sem alertar quem chegava e que via o paraíso ali!

Após o passeio de buggy, retornamos à agência de turismo para realizar o pagamento. Chamei a atendente de lado e relatei a mesma coisa. A reação de surpresa foi idêntica à da recepcionista do hotel e do motorista do buggy: “Isso nunca aconteceu aqui!”. E disparou a falar que ela sempre saía com sua câmera para fotografar e que nada havia acontecido, que ali era um lugar muito seguro etc.

Àquela altura, estava claro que, enquanto o pessoal da cidade falava claramente que havia um problema muito sério de segurança para todos – turistas e moradores -, quem estava envolvido no trato direto com o turismo e com que havíamos feito contato até então estava omitindo informação, afirmando que tudo aquilo era novidade e nunca havia acontecido antes. Outro ponto que chamou minha atenção foi o fato de os moradores que falaram sobre os problemas também insistirem em dizer que quem fazia isso era “gente de fora”. Como se pode afirmar isso? No nosso caso, por exemplo, e em vários outros dos relatos que fizeram, ninguém foi pego.

Naquela noite, fomos jantar no restaurante da Pousada Casa de Taipa e, por achar que seu proprietário precisava saber para alertar seus hóspedes, relatei o que havíamos vivenciado ao Ruy Mazurek. Ele disse que realmente tinha acontecido alguns eventos – embora não tenha relatado quais -, que segurança era assunto prioritário nas discussões entre os proprietários de pousadas e que eles trabalhavam para buscar soluções, de forma que os problemas relacionados a esse tópico não prejudicassem o turismo na cidade. Mas tudo assim, no ar, sem falar claramente o que já havia acontecido com outros turistas antes!

Em minha pesquisa na internet, descobri o blog No Balacobaco, de Emanuel Neri, e enviei meu relato sobre o que vivenciamos em São Miguel como comentário na notícia na qual ele relata sobre as duas turistas assaltadas (clique aqui para acessá-la). Mesmo mais de um ano depois, quando pesquisei para atualizar este texto, ele continua relatando problemas de segurança na cidade que continuam sem solução (veja aqui). Na época, depois que publiquei sobre esse evento em meu blog, recebi e-mails de apoio de Mazurek e de Neri e também fotos de dois jovens para que eu confirmasse se eram aqueles, só que os caras estavam com os rostos cobertos quando fomos assaltadas. Enfim, não deu em nada.

De minha parte, sabendo que pouco posso fazer para mudar o cenário, trabalharei para alertar quem acessar meus textos em busca de informação sobre a região.

A questão não é deixar de curtir um lugar lindo e privilegiado pela natureza como aquele, mas de não se descuidar da segurança, de não se deixar levar apenas pela beleza das praias, do mar e das dunas. É importante não ficar longe de onde houver movimento de pessoas e não sair com cartões de crédito ou dinheiro além do que for necessário, por exemplo.

Deixar a câmera ou a filmadora no hotel, quando tudo o que se quer é guardar boas lembranças de um lugar tão bonito, não faz sentido algum. A questão, volto a dizer, é não baixar a guarda (como infelizmente fazemos em grandes cidades, como aqui onde moro, em São Paulo) nem ficar exposto em lugares mais desérticos, por mais convidativos que sejam.

Por fim, já que o poder público não está fazendo sua parte para cuidar desse destino turístico, talvez os pousadeiros devessem se unir, contratando segurança privada, pois oferecer tranquilidade aos visitantes é cuidar da sobrevivência de seu negócio.

E para completar, todas as pousadas deveriam entregar um texto ao hóspede, no check-in, com recomendações para que fiquem mais atentos com relação ao cuidado com sua proteção. Uma atitude simples, fácil e responsável. As pessoas não deixam de visitar o Rio, por exemplo, nem de viver em cidades grandes como São Paulo. A questão é conhecer os caminhos e se prevenir.

— Atualização: Quase 2 anos depois do que aconteceu comigo, a insegurança e a impunidade persistem em São Miguel do Gostoso. Leia o post Nova onda de insegurança assusta São Miguel do Gostoso, publicado em 15/1/2014 por Emanuel Neri no site noBalacobaco.

(Texto e fotos: Amandina Morbeck)

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2 comentários em “Segurança é ponto nevrálgico em São Miguel do Gostoso”

  1. Amandina Morbeck

    Oi, Thaís, nem fale. Depois dessa infeliz experiência, nunca mais consegui relaxar 100% nas minhas viagens, como acontecia antes. Mas continuo colocando os pés na estrada. Nosso país é muito lindo mesmo, mas concordo com você, pois o descaso generalizado dos governos federal, estadual e municipal contribui para a perpetuação dos problemas que acontecem em lugares que já são turísticos e também para o desenvolvimento capenga de outros que surgem isoladamente, como acontece aqui no sul de Minas. Fazemos a nossa parte, enquanto blogueiras: de viajar, contar o que vivenciamos sem esconder os problemas.
    Obrigada por seu comentário.
    Abraço.

  2. Thaís Freitas

    Parabéns pelo relato minucioso, fico assustada só de pensar no medo que você deve ter sentido quando viu os caras vindo na direção de vocês.
    Realmente dá muita tristeza perceber que lugares tão maravilhosos no Brasil estão se tornando impossíveis de visitar por causa da violência. Afinal, pelo menos pra mim, quando viajo, quero mais é poder relaxar e descansar, e não ter que ficar alerta o tempo todo com medo do que pode acontecer, como ficava no Rio. Não vale a pena, quando tem tantos outros lugares no exterior que custam quase a mesma coisa pra visitar e a gente pode ficar tranquila. Realmente muito triste para o Brasil, que entre tantas outras coisas, perde também no turismo por causa da má administração e falta de interesse dos governantes.

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