
Quero contar para você como foi encontrar a casa onde Elizabeth Bishop morou em Ouro Preto, batizada por ela de Casa Mariana (em homenagem à escritora Marianne Moore, que era sua amiga), num domingo chuvoso de outubro/2011. Lembrei disso quando li sobre o filme Flores raras, que entrará em cartaz este mês. Compartilhando, fica mais uma dica de passeio para quando você for a essa cidade histórica.

Nascida em fevereiro/1911, Elizabeth Bishop chegou ao Brasil em novembro/1951, desembarcando no porto de Santos. O que era ser uma visita de duas semanas acabou virando anos e ela deixou sua marca no Rio de Janeiro e em Ouro Preto. Em 1956, quando recebeu o Prêmio Pulitzer de Poesia, morava em Samambaia, distrito de Petrópolis.
Por gostar muito de seus poemas, fiquei com vontade de saber mais sobre ela e, pesquisando, descobri sobre sua casa na cidade mineira, mas quando cheguei lá, vi que as informações eram muito desencontradas. “Parecia” que ficava próxima do Pouso do Chico Rei, localizado na Rua Brigadeiro Musqueira no centro, mas não era assim. Elizabeth costumava se hospedar no Pouso e o frequentava depois que já tinha sua casa, pois era muito amiga de Lilli Correia de Araújo, que fundou a hospedaria. O poema Under the window: Ouro Preto foi escrito quando ela estava lá (e dedicado a Lilli).

E foi para lá que me dirigi ao chegar na cidade. Andei para cima e para baixo na rua e também nos arredores à procura da casa – cujas imagens eu havia visto na internet – e não encontrei. Bati na porta do Pouso e ninguém atendeu. Perguntei sobre a casa de Elizabeth Bishop em dois comércios vizinhos, mas as pessoas não sabiam do que se tratava.

Resolvi esperar por ali para ver se alguém apareceria no Pouso. Um tempo depois a porta foi aberta por uma mulher e corri para falar com ela, que me disse que a Casa Mariana não ficava ali, mas na via que liga Ouro Preto a Mariana (saindo da Praça Tiradentes, seguir em direção a Mariana).
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Lateral da casa. A melhor vista fica nos fundos, de onde se vê parte da cidade e das montanhas que cercam Ouro Preto. - Ela me deu as dicas e poucos minutos depois, sob a chuva, lá estava eu em frente à porta da casa de número 546 que Elizabeth Bishop comprou, reformou, mobiliou e onde morou bem pouco, na verdade, de julho/1969 a setembro/1970, e que assim a descrevia como tendo “um enorme jardim murado e o telhado mais bonito de Ouro Preto”. Depois disso, fez visitas esporádicas depois e em 1974 solicitou o despacho de todos os seus livros para Boston, de onde não saiu mais.
- Hoje, ela infelizmente não é aberta a visitação e a única referência à americana que a habitou está numa placa pequena, impossível de ser lida por quem passa por ali de carro, pregada na parede, ao lado da porta de entrada.

Andei pela calçada e fotografei o que deu – a fachada, a porta, o quintal, a lateral esquerda e a rua por onde passavam motoristas e pedestres apressados sob a chuva fina. Fiquei imaginando Elizabeth abrindo aquela porta num tempo tão diferente, chegando, saindo, recebendo pessoas.
Ali, amou, sofreu, sonhou, bebeu, adoeceu, sorriu, leu, escreveu, chorou, cuidou do jardim, conviveu com seus amigos e com seu amor, compartilhou o espaço com seus gatos Suzuki e Tobias (que “gostavam de experimentar o colo das visitas”), ouviu tantas vezes Joan Baez, Bob Dylan e Janis Joplin, cozinhou, curtiu a vista da cidade e das montanhas, investiu tempo, dinheiro e energia e girou a chave na fechadura para nunca mais voltar. Tantas histórias…

Numa noite de outubro/1979, em Boston, quando se arrumava para ir a um concerto, sua vida foi interrompida por um aneurisma. Ela tinha 68 anos.
A Casa Mariana ainda era dela, que a deixou em testamento para sua última companheira, que optou por vendê-la. Foi comprada pela brasileira Linda Nemer, que havia conhecido a poetisa em 1969 e que até hoje mantém a decoração praticamente como ela a deixou.
No belíssimo texto Uma casa para Elizabeth, publicado na revista Piauí, Roberto Pompeu de Toledo conta sobre ela. Recomendo a leitura e também uma visita a Ouro Preto para ver de perto a casa que guarda, em seus cômodos, em suas paredes, em suas janelas, em suas portas, em seu quintal, em seu piso, em seu móveis e na varanda dos fundos com a bela vista para parte da cidade e para as montanhas boa parte das vivências de Elizabeth Bishop no Brasil.
Outros textos que indico:
Centenário de Elizabeth Bishop, por Affonso Romano de Sant’Anna
A casa de Elizabeth Bishop no Brasil, por José Alberto Nemer
Conheça a poetisa americana que se apaixonou pelo barroco, por Gustavo Werneck
Sinopse do livro Flores raras e banalíssimas, escrito por Carmem L. Oliveira
Para chegar à casa de Elizabeth Bishop: via entre Ouro Preto e Mariana, saindo da Praça Tiradentes, número 546. Vá a pé, pois a distância é curta e não há como estacionar próximo da casa.
(Texto e fotos: Amandina Morbeck)
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Amandina Morbeck Estou voltando hj ao seu blog … Estive lá em setembro de 2013 e fotografei a casa na volta de Mariana … acho que o número é 514 … Pena não poder postar a foto aqui …
Vou para Ouro Preto dentro de duas semanas e gostaria de visitar a casa. Sabe se é possivel?
Eh,fazendo uma rapida pesquisa pela internet,nao vi menção dela ter morado msm la.eh que o prefacio de "minha vida de menina",traduzido por ela,eh uma coisa tao gostosa de se ler que a gente imagina o brasil daquela epoca e os costumes todos da cidadezinha de interior que eh linda e merece uma visita.com certeza ela gastou bons momentos lá 🙂
Flávia, até onde sei, ela só viveu em Ouro Preto e no Rio de Janeiro. Um abraço.
ela tb morou em diamantina, confere?
Olá, Maria Christina, está no post: na via que liga Mariana a Ouro Preto, número 546. Colocarei essa informação com mais detalhes no texto. Obrigada por sua visita e por seu comentário. Um abraço.
Qual o verdadeiro endereço?