Uma pousada bizarra na Tailândia

Ruínas de Sukhothai, Tailândia - Foto: Amandina Morbeck.

Ruínas de Sukhothai, vizinha de Pitsanulok, Tailândia – Foto: Amandina Morbeck.

Numa de minhas andanças, em 1998 acabei ficando numa pousada bizarra na Tailândia, na cidade de Phitsanulok, vizinha de Sukhothai, conhecida por suas ruínas. Eu vinha de um acampamento de três dias num parque nacional na companhia de Marie, uma francesa que conheci pelo caminho. Descemos na rodoviária da cidade e no guia que ela tinha do país, Lonely Planet, escolhemos uma das pousadas mais baratas sugeridas nele e fomos tomar um tuc-tuc para chegarmos até ela.

Quando mostramos o nome e o endereço ao piloto, ele disse que ela não funcionava mais. Escolhemos a segunda opção. Ele nos olhou meio sério e disse “no, no”. Insistimos e ele disse a mesma coisa, recusando-se a nos levar. Talvez fosse longe demais, falei pra Marie. Fomos falar com outro, que perguntou se era isso mesmo. Confirmamos, ele deu de ombros e nos levou.

Ao descer do tuc-tuc em frente à pousada, vi que do outro lado da rua as pessoas que estavam no salão de beleza ficaram olhando fixamente para nós, com expressão de surpresa. Atribuí aquilo à curiosidade de ver duas mochileiras desgrenhadas e malvestidas.

Batemos na porta algumas vezes, que foi aberta por uma mulher com cara de sono. Eram umas 2 da tarde e achei que ela estivesse fazendo a sesta. Perguntamos se havia vaga e ela disse que sim, nos convidando para entrar. No salão, um pouco escuro, vi algumas mesas, garrafas de bebidas e copos e um rapaz dormindo num banco. Enquanto preenchíamos as fichas, ele levantou, sonolento, e nos cumprimentou. Em seguida, a mulher nos levou ao andar superior. Marie e eu ficamos no mesmo quarto, que era amplo e limpo, com uma janela que dava para a rua lateral. Deixamos nossas coisas e fomos pra rua.

Como sempre gostei de explorar- e ela também -, andamos muito, visitamos templos, comemos na rua, assistimos a uma apresentação de dança e conversamos com as pessoas. A noite caiu e resolvemos jantar antes de voltarmos à pousada. Enquanto esperávamos, um tailandês que estava à outra mesa puxou assunto conosco.

Entre outras coisas, ele perguntou onde estávamos hospedadas. Quando dissemos, o homem mudou totalmente e começou a falar em voz alta que precisávamos sair de lá, que era perigoso, que ele tinha um amigo que tinha um hotel muito bom e mais um monte de coisas. Marie e eu desconfiamos e começamos a desconversar, mas o cara não desistia. Finalmente, nossa comida chegou e pedimos licença para comermos em paz. Ao ver que não mudaríamos de ideia, ele nos deixou comer, mas percebemos que ele ficou falando em tailandês com seus amigos e parecia que toda hora eles olhavam para nós.

Cansadas, terminamos de jantar e nos despedimos, não sem antes ouvirmos que ele poderia ir conosco para pegar nossas coisas e nos levar até o hotel de seu amigo. Seguimos nosso caminho.

Entramos na rua da pousada, mas para nossa surpresa, não conseguíamos encontrá-la – não havia número na parede e teríamos de reconhecer pela fachada. Lembrei do salão de beleza, que ficava em frente e percebi que havíamos passado dele. Voltamos e lá estava nossa pousada, com a parede toda iluminada por luzes coloridas, aquelas de Natal, vidros bem escuros e com várias mulheres e homens (todos estrangeiros) na calçada em poses e gestos sensuais. Um deles estava sentado num banco alto, abraçado a uma menina quase sentada em seu colo. E as meninas eram… travestis! Lindas! Vestidas com roupas de couro preto, com cabelos lisos e negros soltos, maquiadas e sorridentes.

Nos aproximamos meio desconfiadas e, de repente, uma delas veio até nós e, com voz grossa e forte sotaque, disse: “Hey girls! Let’s have a drink!”. Com um pouco de dificuldade, reconheci nela o rapaz que estava dormindo no banco quando fizemos o check-in naquela tarde. Que mudança!

Olhei pra Marie e começamos a rir, entendendo por que o cara do restaurante tinha ficado tão horrorizado. O lugar constava no guia da Tailândia como pousada, mas também funcionava como boate! Agradecemos o drink e entramos. O salão estava lotado, com pouca iluminação, a música tocava em volume alto e os amassos corriam solto.

Fomos andando devagar, abrindo caminho entre os corpos dançantes, em direção à escada. Ao passarmos pelo bar, a mulher que nos atendeu à tarde era a bargirl. Ela nos cumprimentou com um sorriso grande, como se estivesse tudo certo com o fato de encontrarmos a pousada daquele jeito. Eu só queria dormir.

Respondemos ao seu cumprimento e subimos ao andar superior; e como se houvesse uma película protetora contra ruído, do quarto não ouvíamos nada do barulho de baixo. Rimos muito, comentando sobre a bizarrice daquela situação. Depois, dormimos a noite toda sem sermos incomodadas. Na manhã seguinte, quando descemos para começar o dia, só a bagunça no salão lembrava que ali era mais que uma simples pousada. A fachada era outra lá fora, “superinocente”, como havíamos encontrado na tarde anterior. Quando fechamos a porta da rua, as pessoas do salão nos encararam novamente. Sorri e acenei para elas, que responderam no susto.

Resolvemos não ligar para preconceitos – nossos e dos outros – e ficamos mais dois dias por ali. Queríamos visitar os arredores, como um outro parque e a famosa Sukkothai com suas ruínas, que ficava perto. Não tivemos qualquer problema com as meninas ou com seus cliente. Fizemos amizade com algumas e, na última noite, compartilhamos um drink de despedida. Passados todos esses anos, de vez em quando me pergunto se esse lugar ainda existe. No fundo, gostaria de revisitá-lo.

(Texto e foto: Amandina Morbeck)


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