Três pêssegos e uma lembrança para sempre

Pêssegos - Foto: Reprodução.

Pêssegos – Foto: Reprodução.

Saí de Roma num trem noturno para Paris, de onde segui para Le Mans para encontrar uma amiga que estava trabalhando lá. Fiquei num albergue da juventude e, à tarde, encontrava com ela para sairmos, conversarmos e aproveitarmos a cidade noite adentro. Ela morava com o namorado e eles tinham muitos amigos. Numa das noites, conheci Christopher.

Embora um pouco tímido, inicialmente por causa do idioma – eu falava zero de francês e ele falava inglês com dificuldade -, conseguimos conversar por muito tempo e, na hora de dizer tchau, ele disse que se eu quisesse conhecer um pouco do interior da França num lugar pequeno e charmoso, que eu poderia passar uns dias na casa que ele dividia com os pais.

Gostei da ideia e combinamos que no dia seguinte ele passaria para me pegar no albergue. E lá fui eu. Chegamos à casa dele no fim da tarde, depois de termos dado várias voltas por estradas de terra entre plantações diversas e avistado alguns castelos. Desci do carro, peguei minha mochila e fomos caminhando em direção à casa, uma chácara num lugar lindo e tranquilo.

Quando chegamos na varanda, os pais dele saíram e me olharam com cara de poucos amigos. Barreira da língua novamente, eu os cumprimentei com meu limitado francês, eles responderam e foi só. A mãe disse alguma coisa e Christopher pediu licença para acompanhá-la pra dentro da casa. Fiquei lá fora olhando ao redor, enquanto seu pai carregava umas ferramentas.

Christopher voltou todo sem graça e então me dei conta que ele não havia falado nada pros pais sobre mim. Perguntei e ele confirmou, dizendo que achava que não teria problema, pois aquela casa também era dele. Que situação, pensei. Pedi que me levasse de volta para Le Mans, então, mas ele disse que era tarde e que tentaria convencer a mãe de que eu poderia ficar aquela noite, mas ela nem apareceu de novo.

O pai também tinha sumido da minha visão e acabei ficando lá fora conversando com Christopher sobre outras coisas. Para mim, ficar dentro ou fora da casa era o de menos. Se não havia como voltar, paciência. Eu poderia passar a noite no meu saco de dormir. Afinal, tudo o que eu precisava estava na mochila. E foi o que aconteceu. Christopher trouxe sopa para mim, não pude tomar banho, mas apaguei tão logo todos se recolheram. Havíamos combinado de ir passear no dia seguinte e ele me levou até Le Havre. Deixei minha mochila na varanda da casa dele e combinamos que quando voltássemos ele me levaria de volta pro albergue.

Quando chegamos na casa já eram umas 8 da noite e minha mochila não estava onde eu a havia deixado. Ele entrou para perguntar sobre ela pros pais e voltou com um sorriso grande, dizendo que eles a haviam colocado no quarto de hóspedes, pois queriam que eu ficasse lá. E também pediam desculpas pela noite anterior.

Achei superlegal e respondi que para mim estava tudo bem. Entrei na casa e que gracinha. Parecia filme. Na mesa da cozinha a mãe tinha colocado uma travessa com salada e uma tábua com pão para jantarmos. Pedi para tomar banho antes e ela foi me mostrar o quarto, que parecia de boneca, tão lindo e tão arrumado. Agradeci a gentileza e desci depois para jantar. Fiquei mais dois dias com eles. Minha comunicação com os pais era intermediada por Christopher, mas conseguimos nos entender e trocar informações.

Na manhã da minha partida, tomei café com todos. Christopher me levaria à estação de trem. Abracei seus pais com carinho e os agradeci mais uma vez. Entramos no carro e, de repente, vimos seu pai fazendo sinal para que esperássemos, enquanto andava rapidamente em nossa direção. Ele veio para o meu lado. Baixei a janela do carro. Sem dizer uma palavra ele puxou minha mão direita, virou a palma para cima e colocou 3 pêssegos pequenos que havia acabado de colher no quintal. Abriu um sorriso grande, deu dois tapinhas no meu ombro e se afastou com os olhos cheios d’água. Com um nó na garganta, consegui dizer merci duas vezes. Acenamos um pro outro enquanto o carro se afastava e Christopher pegou a estrada. Desci na estação e nos despedimos com um abraço demorado.

Enquanto o trem seguia em direção a Paris, comi os pêssegos. Ficou uma lembrança daquele momento carinhoso e daquela família simples por quem me apaixonei, mas que no fundo eu sabia que as chances de nos reencontrarmos seriam mínimas. Realmente, nunca mais os vi, mas todas as vezes que como pêssego lembro daquela manhã, do calor das mãos calejadas e fortes daquele homem e do olhar carinhoso que acompanhou seu gesto inesperado. E me dá uma saudade danada!

(Texto: Amandina Morbeck)


Receba nossas novidades por e-mail. Para isso, é só preencher seus dados abaixo e clicar em “Enviar”. Ficaremos contentes de ter você em nossa lista!


Outras histórias, por ordem de publicação (clique nos títulos para acessá-las):

1- Nunca vi uma brasileira antes!

2- Escândalo depois do jantar e baguete debaixo do braço

3- Uma pousada bizarra na Tailândia

4- Meu encontro com os pais da cantora Enya

5- Três pêssegos e uma lembrança para sempre

6- Pronta para conhecer o Laos

7- E eu era vegetariana…

8- A cerimônia de bênção da pousada em Luang Prabang

Comments

comments

Comente este post

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *