Travessia dos Lençóis Maranhenses – dia 1

Mapa dos Lençóis Maranhenses com o trajeto que fizemos - Travessia dos Lençóis Maranhenses.

As linhas em laranja mostram o trajeto que fizemos a pé – 51 km – Foto: Reprodução.

Estava tudo pronto para Erika Corrêa e eu fazermos a travessia dos Lençóis Maranhenses (Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses) a pé, em dois dias, em setembro/2006, para uma matéria para a revista Aventura&Ação. Essa aventura foi muito mais desafiante do que pude antecipar, mas valeu muito a pena e até hoje tenho muita saudade daquele lugar e de tudo o que vivenciei.

Voamos de São Paulo para São Luís, mas inicialmente ficamos pouco na capital maranhense. No dia seguinte, já seguimos com o guia Pedro Cardoso por 120 km de ônibus até um local chamado Sangue. Ali, esperamos por um Bandeirante 4×4 – que funcionava como coletivo – para nos levar até Santo Amaro do Maranhão, de onde começaríamos a caminhada. Foram mais 2h30min de viagem, sacolejando na carroceria, enquanto cortávamos o areão em meio a uma paisagem agreste muito pobre. Só carros tracionados conseguem passar por ali.

De Santo Amaro do Maranhão a Queimada dos Britos

Rio Alegre em Santo Amaro do Maranhão - Travessia dos Lençóis Maranhenses - dia 1 - Foto: Amandina Morbeck.

Rio Alegre, Santo Amaro do Maranhão.

A minúscula Santo Amaro fica às margens do Rio Alegre – que tem praias na época da seca – e seu principal atrativo são as dunas e as maravilhosas lagoas próximas: da Gaivota, das Andorinhas e as Emendadas. E nosso primeiro contato com as dunas aconteceu naquele dia mesmo, quando conhecemos a Lagoa da Gaivota, de água morna e cristalina, rodeada por aquela imensidão de areia. Foi paixão à primeira vista: assim que pisei na areia minha vontade foi de sair caminhando naquele momento. É uma sensação mágica o contato com aquelas dunas de tamanhos e de formatos diferentes salpicadas por lagoas.

Lagoa da Gaivota - Santo Amaro - Travessia dos Lençóis Maranhenses - dia 1 - Foto: Erika Corrêa.

Como resistir a tanta beleza?

Voltamos para a cidade para nos preparamos para o dia seguinte, pois tínhamos de madrugar. Saímos às 5h da manhã e Ribamar, parente do pessoal de Queimada dos Britos, nosso destino aquele dia, juntou-se a nós – e levou sua bicicleta. Ao passarmos em frente à rádio local, que já estava aberta, o guia disse que enviaria um recado para seu Raimundo Brito, o patriarca de Queimada, avisando-o sobre nossa ida e pedindo que preparasse um peixe bem gostoso para 4 pessoas que chegariam por volta das 13h. Apesar de ser aquele o único meio de contato na região dos Lençóis, achei que as chances de seu Raimundo ouvir o recado eram bem pequenas. Mas me enganei.

Ribamar aproveitava as descidas para pedalar - Travessia dos Lençóis Maranhenses - dia 1.

Ribamar pedalava sua bike nas dunas, principalmente nas descidas.

Pés nas dunas com o céu fechado. Havia chovido muito naquela noite. Levei apenas o essencial: documentos, dinheiro, máquina fotográfica, itens para higiene, biquíni, protetor solar (imprescindível), duas camisetas, duas calcinhas, uma bermuda, um saco estanque, anorak para proteger de vento e da chuva, boné tipo expedicionário, lanterna de cabeça, um par de papetes, água, Gatorade, barras de cereal, proteína, frutas e bolachas. O restante da bagagem ficou em São Luís.

Mal começamos a andar, caiu uma chuva torrencial com muito vento. E aí, vi o primeiro grande desafio: não há como se proteger das intempéries da natureza naquele lugar, pois não há casas, árvores nem rochas, só areia. Ou seja, independentemente do que for, é preciso continuar caminhando.

Travessia dos Lençóis Maranhenses - dia 1 - Foto: Erika Corrêa.

Choveu bastante nas primeiras horas de caminhada.

Outra coisa interessante: não tem como ficar desviando das lagoas o tempo todo – a não ser as mais profundas – nem das dunas mais altas. Se fizéssemos isso, demoraríamos uma semana para atravessar os Lençóis Maranhenses. É preciso saber a direção e seguir em frente. E foi numa dessas, no meio da manhã, que afundei inesperadamente até o peito e a câmera digital da revista, que estava no bolso do meu anorak, foi pro beleléu. Quase chorei – e ainda ficava pensando como contaria isso pro pessoal quando eu voltasse. Sorte que a Erika tinha outra e, a partir daí, nos revezávamos para usá-la.

Passado esse momento de chateação, não tinha como não curtir a caminhada e aquela sensação absurda de liberdade que comecei a sentir. Com a areia compactada por causa das chuvas ficava mais fácil para caminhar, para correr e até para pedalar. Ribamar mais que empurrou a bike e, nas travessias de lagoas, ele a levava no ombro. Ela lhe seria mais útil para voltar, ele disse, quando estaria sozinho.

Travessia dos Lençóis Maranhenses - dia 1 - A caminho de Queimada dos Britos - Foto: Erika Corrêa.

A essa altura, estávamos perto de Queimada dos Britos.

Seguimos conversando, rindo, cantando, mergulhando nas lagoas, parando para descansar e para comer e aprendendo com quem tinha as manhas pra lidar com aquele lugar inóspito. Ribamar, por exemplo, abria buracos na areia, perto das lagoas, para conseguir água para beber. Quando perguntei por que ele não bebia direto delas, já que a água era de chuva e parecia ser limpa, ele respondeu que algum animal podia ter morrido ali, por isso era preciso filtrá-la.

Ninguém falava em quilometragem ali e quando perguntávamos quanto faltava para chegarmos, Ribamar respondia: “Estamos mais perto do que longe”. Achei tão fantástica essa resposta, que perguntava de tempos em tempos só para que a repetisse. E ele falava sério.

Casa de Raimundo e Joana em Queimada dos Britos - Travessia dos Lençóis Maranhenses - dia 1 - Foto: Erika Corrêa.

Casa do casal Raimundo e Joana em Queimada dos Britos.

Depois de 26 km e quase 8h de caminhada, chegamos a Queimada dos Britos, um oásis em meio às dunas, por volta das 13h. E para nossa surpresa, Raimundo Brito e sua esposa, Joana Malheiros, haviam recebido a mensagem pelo rádio e nos esperavam com uma refeição deliciosa! Para eles, ver pessoas vindas de tão longe para conhecer os Lençóis a pé era motivo de alegria. Fiquei muito admirada com aquelas pessoas, vivendo tão isoladas do mundo, cercadas por um ambiente tão inóspito e ao mesmo tempo tão maravilhoso. Ambos disseram que não trocariam aquele lugar por nenhum outro.

Redes para hóspedes na Queimada dos Britos - Foto: Erika Corrêa.

“Dormitório” com redes para hóspedes na Queimada dos Britos.

Tomei banho numa das lagoas próximas antes da refeição e depois comi arroz, feijão e peixe frito acompanhados do adocicado vinho de caju misturado com tiquira, pinga extraída da mandioca. Ficamos por ali, conversando, e a noite foi chegando devagar. Sem luz elétrica, toda a iluminação é feita com lamparinas a querosene e um lampião a gás. Cansada e com bolhas começando a se formar nos meus pés, apaguei rapidinho depois do jantar numa das redes penduradas no galpão coberto com palha de buriti, sem paredes, que é destinado aos hóspedes. No dia seguinte, sairíamos bem cedo para a segunda perna da aventura, cujo destino era Canto do Atins.

Veja como foi o segundo dia da travessia dos Lençóis Maranhenses.

Na cozinha, Joana, Ribamar, Erika e eu em Queimada dos Britos - Foto: Raimundo Brito..

Na cozinha, Joana, Ribamar, Erika e eu em Queimada dos Britos.

(Texto: Amandina Morbeck; fotos: Amandina Morbeck, Erika Corrêa e Raimundo Brito)

(Encontrei um relato de junho/2013 de uma pessoa que fez a travessia em 3 dias no sentido contrário ao nosso, ou seja, começou em Canto do Atins e terminou em Santo Amaro do Maranhão – veja aqui.)

Posts relacionados (clique nos títulos para acessá-los):

De Atins a Barreirinhas

Os povos da areia

Alcântara, Maranhão


Observação: Se tiver intenção de visitar esse lugar, confirme as informações na época de sua viagem, pois com o passar do tempo (desde a publicação deste post) muitas coisas podem mudar.


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8 comments

  1. Amandina Morbeck on 01/04/2015 at 13:11 said:

    Oi, Conceição, agradeço seu comentário. Deu saudade de lá ao saber que você esteve em Queimada. (rs) Lençóis Maranhenses é um lugar incrível mesmo, um dos mais lindos que já visitei.
    Um abraço.

  2. Amandina Morbeck on 01/04/2015 at 10:09 said:

    Oi, Conceição, agradeço seu comentário. Deu saudade de lá ao saber que você esteve em Queimada. (rs) Lençóis Maranhenses é um lugar incrível mesmo, um dos mais lindos que já visitei.
    Um abraço.

  3. Conceiçao Antunes on 23/03/2015 at 00:12 said:

    Muito lindo….maravilhoso…cheghei hoje de queimada…sem explicação…o lugar e fantastico

  4. Amandina Morbeck on 04/04/2014 at 13:05 said:

    Daquilo que conheci por lá, Lester, concordo plenamente.

  5. Lester Izaac on 21/02/2014 at 16:15 said:

    Quem não conhece, está perdendo…vale muito à pena…acho que é a parte mais bonita do Maranhão.

  6. Talita Nascimento II on 17/07/2013 at 02:06 said:

    Vc vai conhecer com certeza!!!

  7. Neuza Das Graças on 16/07/2013 at 19:24 said:

    muito lindo gostaria de poder conhecer um dia….

  8. Rizete Cristina on 16/07/2013 at 00:49 said:

    ADOOOOOROOOOOO!

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