Pronta para conhecer o Laos

Ancoradouro no Rio Mekhong - Foto: Amandina Morbeck.

Ancoradouro no Rio Mekhong, de onde partimos.

Foram poucos dias pra eu ajeitar tudo e ficar pronta para conhecer o Laos.

É que depois de quase 3 meses na Tailândia e faltando poucos dias para meu visto expirar, eu precisa me decidir: ou deixava o país e voltava pros Estados Unidos, onde estava morando na época, ou visitava um dos países ali perto para sair e voltar para receber novo visto. Escolhi o Laos.
Peguei um ônibus em Chiang Mai e fui até Chiang Rai, à beira do Rio Mekong, a nordeste da Tailândia. Dormi uma noite, conheci um pouco da cidade e no dia seguinte atravessei o rio de canoa; nessa travessia, conheci Marie, uma francesa de 21 anos que também viajava sozinha. Simpatizamos com a outra e fomos companheiras de viagem pelas próximas duas semanas, sem sabermos que dentro de pouco tempo começaríamos a vivenciar uma série de bizarrices que tornariam nossa viagem inesquecível.

Quando chegamos do outro lado do rio, no Laos, por volta das 10h da manhã, pegamos o visto e fomos informadas que deveríamos descer a rua até a praia onde ficavam os barcos (nada de cais). Lá, compraríamos a passagem para nosso primeiro destino, Luang Praban, e o barco sairia às 13h.
Caminhamos com calma até lá, compramos nossa passagem e o atendente nos mostrou o barco que pegaríamos. Não era um barco para passageiros, mas de carga – parece que por falta de opção (não sei como é hoje), o barqueiro também levava quem quisesse descer o Mekong. Também vimos quem era o responsável pelo barco e fomos nos apresentar a ele, que mal falava inglês e zero de francês. De qualquer forma, mostramos as passagens, ele indicou que podíamos deixar as mochilas no barco e que sairíamos às 14h. Fizemos o que ele disse e, no barco, encontramos uma mulher e uma criança, que depois vimos que eram sua família.

O barco-casa no qual navegamos um dia inteiro - Foto: Amandina Morbeck.

O barco-casa no qual dormimos duas noites e navegamos um dia inteiro.

Como tínhamos tempo, ficamos por ali, andamos na praia, almoçamos num restaurante próximo e depois voltamos pro barco para esperarmos a partida. 14h, 15h, 15h30… e nada de o barqueiro aparecer. Perguntamos a sua mulher – mais mímica que linguagem – onde ele estava e ela apontou para uma casa de palha numa subida depois da praia, com vários homens na porta. Imaginei que fosse um bar. Fomos até lá e ele estava bebendo com amigos. Depois de várias tentativas, entendemos que sairíamos às 17h. Estranhei de cara porque pelo estado do barco ele não tinha condições de navegar à noite e o Mekong tem muitas pedras. Marie e eu saímos de lá e concordamos que as chances de irmos aquele dia eram mínimas. E realmente foi o que prevíamos. Brigamos com o barqueiro, mas nada adiantou. Acabamos jantando com eles e Marie, que era chegada numa bebida, compartilhou várias doses de “uísque do Laos”, uma aguardente muito forte que eu mal consegui provar.

Dormimos no deck em nossos sacos de dormir, embaladas pela correnteza suave do rio e acordamos cedo com a claridade do dia. Quando descemos, umas 7h30, o barqueiro não estava lá. Saímos para tomar café da manhã e o encontramos próximo do local onde havíamos comprado nossas passagens. Perguntamos que horas sairíamos e ele disse que era às 9h. Mas isso não aconteceu. Às 10h, fomos atrás dele de novo e dessa vez perdemos a paciência. Pedimos o dinheiro de volta e ele fingiu que não entendeu. Depois de uns minutos de estresse ele pareceu irritado e ficou repetindo: “Go, go, go”, apontando pro barco. Não nos mexemos e ele começou a caminhar em direção ao rio. Fomos atrás dele em silêncio. Finalmente, entramos no barco, ele falou alguma coisa com a mulher e deu partida. O barulho do motor era ensurdecedor e a área mais comprida, na frente do barco, estava lotada de mercadorias. Aos poucos, deixamos a praia para trás.

Jantar com o barqueiro, sua família e seus amigos e Marie bem à vontade - Foto: Amandina Morbeck.

Jantar com o barqueiro, sua família e seus amigos e Marie.

No caminho, ele tinha de parar quando havia uma choupana com um policial perto do rio. Na primeira vez não nos mexemos, mas depois entendemos que Marie e eu tínhamos de descer e ir até o policial com o passaporte (pagávamos uma taxa e pegávamos um carimbo para continuarmos a viagem). Se chegássemos ao próximo posto sem o carimbo anterior, entendemos que teríamos de voltar. E assim fomos, até chegarmos numa vila ao anoitecer, com um monte de barcos atracados, um preso ao outro.

Pensamos que havíamos chegado a Luang Prabang, mas não era. Como assim? Navegamos o dia todo e ainda não chegamos? Fomos “informadas” que iríamos dormir ali, mas quando saímos de manhã o barqueiro tinha nos dito que chegaríamos lá naquele dia… Ele também disse que podíamos tomar banho no rio. Eu já estava de saco cheio daquela enrolação. Tomamos banho e depois fomos jantar e tomar umas cervejas. Conhecemos outros mochileiros que também estavam tão perdidos como nós e fomos dormir bem tarde; na volta, sem lanterna e com céu nublado, nos equilibramos nas tábuas que uniam um barco ao outro até chegarmos ao nosso.

No dia seguinte, acordamos cedo de novo e, de repente, a mulher do barqueiro veio até o deck e, esbaforida, começou a gritar “Go, go, go”, mexendo os braços e apontando para a praia. Juntamos nossas coisas, enfiamos tudo na mochila de qualquer jeito e fomos atrás dela. Encontramos o barqueiro numa subida e ele ficou apontando outro barco e, com seu inglês horrível, entendemos que ele estava nos mandando pegar outro barco ao redor do qual tinha um monte de gente. E mostrou que tínhamos de comprar outra passagem numa casinha logo atrás dele.

Descendo o Rio Mekhong - Foto: Amandina Morbeck.

Descendo o Rio Mekhong.

Falei pra ele devolver nosso dinheiro, pois pagamos a passagem até Luang Prabang. Novamente, ele quis dar uma de esperto, como se não entendesse. Comecei a falar bem alto e ele, a contragosto, enfiou a mão no bolso e nos devolveu metade do que havíamos pago. Cara safado!, pensei. Subimos para comprar as passagens e a atendente falou que o barco já estava saindo, que tínhamos de correr. Descemos o barranco e corremos pela areia o mais rápido que conseguimos. Mal havia lugar para deixarmos as mochilas. O barco estava lotado de passageiros e de vasos sanitários no teto, mas pelo menos estávamos a caminho de novo.

A essa altura, a fome bateu e pegamos umas coisas que tínhamos na mochila. Sentamos no teto, compartilhando espaço com os vasos, e aos poucos fomos fazendo amizade com outros viajantes. A paisagem era bonita e dava pra ver os moradores ao longo do Mekong trabalhando em suas plantações, crianças brincando no rio, pessoas tomando banho, barcos subindo e descendo e, como no dia anterior, de tempos em tempos tínhamos de descer – só turistas – para o mesmo processo nos “postos de imigração”. E assim foi até chegarmos ao nosso destino no meio da tarde – onde também tivemos de passar pelo mesmo processo na “alfândega”.

De qualquer forma, finalmente estávamos em Luang Prabang, essa cidade tão lindinha, construída por franceses – que colonizaram o Laos – e tombada pela Unesco, onde ficaríamos por uns dias e vivenciaríamos outras histórias que compartilharei nos próximos posts.

(A qualidade das imagens deixa a desejar porque tive de digitalizá-las, pois as fiz com câmera analógica.)

(Texto e fotos: Amandina Morbeck)


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1- Nunca vi uma brasileira antes!

2- Escândalo depois do jantar e baguete debaixo do braço

3- Uma pousada bizarra na Tailândia

4- Meu encontro com os pais da cantora Enya

5- Três pêssegos e uma lembrança para sempre

6- Pronta para conhecer o Laos

7- E eu era vegetariana…

8- A cerimônia de bênção da pousada em Luang Prabang

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