Nunca vi uma brasileira antes

Kilcar, Donegal, Irlanda - Foto: Reprodução Donegal Cottage Holidays - Nunca vi um brasileiro antes - www.viajandocomaman.com.br

Kilcar, Donegal, Irlanda – Foto: Reprodução Donegal Cottage Holidays.

Nunca vi uma brasileira antes! foi a frase que ouvi pela primeira vez num ônibus em 1996, numa subida íngreme indo de Donegal para Kilcar, na Irlanda. E quem disse? O motorista, que parou de uma vez, puxou o freio de mão daquele ônibus caquento, levantou-se e veio em minha direção quando ouviu meu comentário, com uma passageira, de que eu era brasileira. Ele era imenso, barbudo, com cabelo e barba avermelhados, pegou no meu braço para eu me levantar e me deu um abraço superapertado, dizendo que nunca havia visto uma brasileira (pode ser um brasileiro também, já que ele não especificou a Brazilian woman) antes.

Todo mundo riu e bateu palmas, enquanto eu era esmagada por aquele gesto carinhoso e espontâneo. Depois, ele voltou e continuou a dirigir, olhando para mim de vez em quando e sorrindo. Quando desci do ônibus em Kilcar, ele veio me abraçar de novo, sorridente, e disse algumas coisas com aquele inglês irlandês que continuo tendo dificuldade para entender. Por via das dúvidas, agradeci, peguei minha mochila e fui pro albergue com umas alemãs que conheci naquele trecho.

Achei meio exagero do motorista, como se ele estivesse só querendo fazer graça, mas tudo bem. No dia seguinte, fiz uns passeios pela região e no meio da tarde, escrevi uns postais para enviar para alguns amigos e para minha família. Fui até o correio e, surpresa, o atendente disse que não sabia como me cobrar pelos postais porque nunca tinha enviado nada para o Brasil… Como assim? E ouvi novamente: “Nunca vi uma brasileira [ou um brasileiro] antes!”. Mas garantiu que veria o que tinha de fazer. E sumiu.

Enquanto esperava por ele, pensava no quanto aquilo era engraçado. Sorte que pelo jeito só eu queria usar seus serviços naquele minúsculo espaço. Uns 20 minutos depois ele voltou, sorridente, dizendo que estava tudo certo. Enquanto colocou os selos nos postais e depois os carimbou, sem nenhuma pressa, me fez algumas perguntas sobre como era o Brasil e o que havia aqui, comentou que pelo jeito os brasileiros não gostavam da Irlanda e por fim quis saber o que eu estava achando do seu país. “Estou adorando tudo”, respondi imediatamente, “porque a Irlanda é linda!” (como realmente é). Ele abriu um sorriso imenso, dizendo que ele também adorava e que nunca havia saído dali.

Paguei o valor que ele disse e nos despedimos com um aperto de mão. E como todo mundo recebeu os postais no Brasil, então ele fez tudo direitinho mesmo.

Naquela noite, as alemãs e eu deixamos o albergue para nos divertimos num pequeno pub da vila. Quando chegamos lá, dois turistas tocavam violão e naquele momento cantavam canção italiana – depois descobri que eram italianos. De novo, parecendo que eu era um ser de outro planeta e não de outro país, quando me perguntaram de onde eu era, respondi e adivinha o quê? Eles começaram a cantar Tom Jobim! Fala sério! Ali, tão longe de casa e ouvindo MPB. Chorei, né? E cantei junto algumas músicas. Foi superdivertido!

Embalada pela emoção do momento, eu que nem bebia, tomei várias Guinness, sei lá quantas, na companhia das alemãs criadas na cerveja. De qualquer forma, ficamos todas bêbadas e, ao sairmos do pub, não encontramos o caminho de volta ao albergue… Bom, mas isso é causo para outro post.

(Texto: Amandina Morbeck)


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