Escândalo depois do jantar e baguete embaixo do braço

Cherré - Escandalo depois do jantar e baguete debaixo do braço - Foto: Reprodução

Cherré – Foto: Reprodução.

Temos aqui dois acontecimentos – escândalo depois do jantar e baguete embaixo do braço – vividos por mim um dia após o outro e que têm a ver com uma só questão: diferenças culturais.

Anos atrás, mochilei por três meses pela Europa e um dos lugares que visitei foi uma pequena cidade do interior da França onde Cindy, uma garota francesa com quem eu havia estudado inglês nos Estados Unidos, morava com os pais. Antes de partir de volta para casa, ela me disse que se um dia eu fosse à Europa, que era para procurá-la. E assim fiz, indo até a pequena Cherré, onde ela e os pais me receberam alegremente – embora eles não falassem quase nada de inglês e eu praticamente zero de francês.

Na primeira noite, após o jantar, insisti que queria arrumar a cozinha, como uma forma de agradecer a hospitalidade. E lá fui eu: juntei as vasilhas, coloquei-as na pia, pus detergente na bucha, molhei-a e comecei a esfregar talheres e pratos. Quando terminei, abri a torneira, como fazemos aqui no Brasil, e mal a água começou a escorrer, ouvi o grito da mãe da Cindy, às minhas costas, e vi uma mão fechando a torneira. Ela falava rapidamente, esbaforida, e eu não entendia nada. A Cindy tentava falar comigo, enquanto a mãe dela tomou a bucha de minha mão e me empurrou para o lado. Perdida, fiquei meio que em choque.

Qual era o problema?, perguntei à Cindy. Bem, a questão é que a forma de a mãe dela lavar vasilhas – ou dos franceses em geral, não sei se posso generalizar assim – era bem diferente da nossa e aquela senhora estava horrorizada com isso, com nosso desperdício de água. Ainda resmungando, ela tapou o ralo, encheu a pia de água e foi ensaboando e enxaguando as vasilhas ali. Lavou tudo com cara de poucos amigos. Cindy tentou se desculpar pela mãe, mas foi uma situação constrangedora para mim, ainda mais pelo fato de eu não ter feito nada de mau ou com má intenção. O que estava acontecendo ali era simplesmente um choque cultural por conta das nossas diferentes realidades. Desculpei-me, desejei boa noite e Cindy e eu fomos pra rua.

Na manhã seguinte, acordei mais cedo que todo mundo e, para esperar que se levantassem, saí e fui tomar sol sentada nos degraus da escada de uma igrejinha que ficava quase em frente da casa da família, que por sua vez, era colada a uma padaria. E lá fiquei a observar os franceses (de novo, não posso generalizar, mas pelo menos aqueles que vi naquela manhã) virem e irem com suas baguetes desembrulhadas. Elas vinham com um pequeno pedaço de papel o suficiente para serem seguradas e só. E a maioria das pessoas desceu ou subiu a rua levando-as embaixo do braço, outras as colocaram no painel do carro, algumas no porta-malas e outras no banco do passageiro, daquele jeito, sem saquinho de pão, sem plástico, sem sacolinha.

Comecei a rir sozinha, pois na noite anterior eu havia passado aquele estresse com a mãe de Cindy e agora era minha vez de achar aquilo muito diferente. Mas de novo, apenas uma questão de cultura. Se eu tivesse nascido na França e tivesse sido educada de acordo com seus padrões, lavaria todas as vasilhas na mesma água represada na pia e levaria o pão como aquelas pessoas que passavam apressadamente na minha frente.

Encostei as costas no degrau e deixei minha cabeça pender para trás enquanto fechava os olhos para protegê-los do sol que batia em cheio no meu rosto. Agradeci o universo por aquele momento, por aquele presente. A melhor forma de conhecer uma cultura diferente da sua é mergulhando nela. E lá estava eu sendo desafiada na minha maneira de ver o mundo. Ouvi passos aproximando-se e voltei a cabeça para olhar. Cindy veio andando até a mim, me beijou o rosto e sentou-se do meu lado, acendendo um cigarro. Ela nada disse, nem eu, até que terminasse de fumar.

Citroen antigo 2 cv (Reprodução)

Então, me perguntou se eu estava com fome e assenti. Levantamos, ela me deu a mão, atravessamos a rua e entramos na padoca. Compramos uma baguete e eu saí de lá levando-a desembrulhada sem pensar em nada além do quanto o cheiro daquele lugar era bom. À mesa para o café da manhã, a mãe de Cindy desculpou-se e eu fiz o mesmo. Depois que terminamos, lavei as vasilhas exatamente como a havia visto fazer na noite anterior. Quando tudo estava arrumado, saímos os quatro para uma caminhada pela charmosa Cherré.

Dois dias depois nos despedimos com fortes abraços na ferroviária da cidade, onde os três me levaram num carrinho exatamente como esse da foto.

(Adoraria ter fotos para mostrar, mas a bolsa com minha câmera foi roubada em Amsterdã na primeira semana do meu passeio; com ela, foram todos os filmes (naquele época ainda não havia câmera digital) batidos e os virgens).

(Texto: Amandina Morbeck)


Receba nossas novidades por e-mail. Para isso, é só preencher seus dados abaixo e clicar em “Enviar”. Ficaremos contentes de ter você em nossa lista!


Outras histórias, por ordem de publicação (clique nos títulos para acessá-las):

1- Nunca vi uma brasileira antes!

2- Escândalo depois do jantar e baguete debaixo do braço

3- Uma pousada bizarra na Tailândia

4- Meu encontro com os pais da cantora Enya

5- Três pêssegos e uma lembrança para sempre

6- Pronta para conhecer o Laos

7- E eu era vegetariana…

8- A cerimônia de bênção da pousada em Luang Prabang

Comments

comments

Comente este post

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *