Buenos Aires – Cemitério da Recoleta

Fachada do cemitério da Recoleta em Buenos Aires, Argentina - Foto: Amandina Morbeck.

Fachada do cemitério – Foto: Amandina Morbeck.

Quando preparava a viagem para Buenos Aires, li várias coisas sobre a cidade na internet e em guias e busquei informação com amigos que já haviam viajado para lá. E qual não foi minha surpresa ao descobrir a ênfase de todos para não deixar o Cemitério da Recoleta (Cementerio de la Recoleta) de fora.

Uma amiga contou que teve de ser tirada quase à força pelo marido porque queria ficar o dia inteiro lá. Que mórbido, pensei. Vi umas fotos pela internet e não achei nada de mais, mesmo porque não achava que cemitério devia ser considerado ponto turístico, mas concordei em conhecer por conta dessa “falação”. E qual não foi minha surpresa ao sentir que eu também poderia ficar naquele lugar o dia inteiro!

Praça em frente à entrada do Cemitério da Recoleta, em Buenos Aires, Argentina, com Hotel Etoile ao fundo - Foto: Amandina Morbeck.

Praça em frente à entrada do cemitério, com Hotel Etoile ao fundo – Foto: Amandina Morbeck.

Localizado na Recoleta, o bairro mais badalado de Buenos Aires, o cemitério municipal é como uma ilha cercada por altos prédios, hotéis, praças e uma feirinha com roupas, livros, artesanato e outras bugingangas. Sua entrada é imponente e o mausoléu mais visitado é o que guarda o corpo de Maria Eva de Duarte Perón ou simplesmente Evita Perón (1919-1952), que de atriz sem talento e com pouquíssima expressão tornou-se a glamurosa e mítica mulher do então presidente argentino Juan Domingo Perón. E o mito Evita perdura na Argentina até hoje, quase 60 anos depois de sua morte em consequência de câncer uterino (conheça um pouco de sua história clicando aqui).

O corpo de Evita está enterrado no mausoléu dos Duarte; à direita, uma das placas em sua homenagem colocada na fachada - Cemitério da Recoleta, Buenos Aires, Argentina - Foto: Amandina Morbeck.

O corpo de Evita está enterrado no mausoléu dos Duarte; à direita, uma das placas em sua homenagem colocada na fachada – Foto: Amandina Morbeck.

Seu corpo embalsamado ficou exposto à visitação até 1955, quando durante o golpe que derrubou seu marido ele foi roubado em Buenos Aires e enterrado em Milão, na Itália. Em 1971, foi desenterrado e entregue a Perón na Espanha, onde ele estava exilado. Em 1974, após sua morte, sua terceira mulher levou o corpo de Evita da Espanha para ser enterrado definitivamente na capital portenha no mausoléu da família Duarte – família por parte do pai que não a reconheceu como filha. Revestido de granito preto, tem várias placas em sua parede externa em homenagem a ela. Difícil de ser fotografado por causa da quantidade de pessoas na rua estreita, atrai visitantes estrangeiros e também muitos argentinos em respeito àquela que foi “santificada”, ainda que midiaticamente, e eleita a mãe dos “descamisados”, como ela chamava os pobres de seu país (o ex-presidente Fernando Collor não foi nada original).

Vitral de uma das capelas e um pouco mais do Cemitério da Recoleta em Buenos Aires, Argentina - Fotos: Amandina Morbeck.

Vitral de uma das capelas e um pouco mais do cemitério – Fotos: Amandina Morbeck.

Bom, mas o que há de tão interessante nesse cemitério, além do túmulo de Evita, que me fez querer ficar ali por mais tempo? Acima de tudo, a atmosfera. Pode parecer estranho, mas há algo de aconchegante naquele lugar, ainda que em algumas capelas você veja caixões expostos – alguns bem-conservados e outros nem tanto. Há muitos túmulos e mausoléus abandonados, mas a maioria é bem-cuidada e aquele espaço é um convite para fotos e mais fotos e mais fotos. Até descobri um jeito de fotografar os vitrais que, vistos de fora nada têm de atraente, mas olhando pelas portas envidraçadas para dentro das capelas, muda toda a perspectiva. Então, eu encostava a câmera no vidro e clicava. O resultado ficou bastante aceitável, considerando as condições nada ideais.

Detalhe numa das sepulturas no Cemitério da Recoleta, Buenos Aires, Argentina - Foto: Amandina Morbeck.

Detalhe numa das sepulturas – Foto: Amandina Morbeck.

Enquanto caminhava por suas ruas, lembrei-me daquele filme “Nós que aqui estamos por vós esperamos”. Pensava no que aquelas pessoas podiam ter vivido, do que haviam gostado, se riram mais do que choraram em sua existência, se haviam amado ou sido amadas, se tiveram filhos, se morreram sozinhas ou se alguém lhe segurou a mão no momento final. Também observei os prédios ao redor, com sacadas voltadas para o cemitério e me perguntei se eu moraria num deles tendo essa vista para lápides, esculturas, capelas, anjos e cruzes. Bem, acho que aí seria um pouco “over”; eu não conseguiria ver aquela paisagem todos os dias, mas é um ótimo lugar para reflexão também. Ninguém escapará desse fim, por mais que vivamos como se o daqui a pouco ou o amanhã fosse sempre se concretizar – mas na verdade só existem em nossa imaginação.

Um dos moradores vivos do Cemitério da Recoleta em Buenos Aires, Argentina - Foto: Amandina Morbeck.

Um dos moradores vivos do cemitério – Foto: Amandina Morbeck.

Depois da andança e das fotos, quase na saída encontrei um gato comendo sua ração na maior tranquilidade, para depois ficar sentado ao sol observando ao redor, e mais dois deitados sob uma araucária. São os moradores permanentes daquela pequena vila que se aquieta quando ao fim do dia seus portões são cerrados. Se os outros moradores invisíveis saem depois disso para curtirem o frescor da noite, talvez só os gatos, com sua pachorrice e sua aparente indiferença ao que acontece ao redor, saibam.

Um passeio inusitado, sem dúvida, mas que recomendo também.

(Texto e fotos: Amandina Morbeck)


Observação: Se tiver intenção de visitar esse lugar, confirme as informações na época de sua viagem, pois com o passar do tempo (desde a publicação deste post) muitas coisas podem mudar.


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