Brasileiro morreu em Torres del Paine, Chile

Parte da trilha em direção ao Refúgio El Chileno e, depois dele, o mirante Base das Torres - Foto: Amandina Morbeck.

Parte da trilha em direção ao Refúgio El Chileno; depois dele fica o mirante Base das Torres – Foto: Amandina Morbeck.

A notícia de que um brasileiro morreu em Torres del Paine, Chile, me entristeceu muito. O evento aconteceu no dia 22/10/2016 próximo do mirante Base das Torres e, de acordo com testemunhas, Francisco Silva Haddad, 30, advogado paulistano, caiu inconsciente na trilha e nada pôde ser feito para salvá-lo. Tudo o que queremos quando saímos para viajar é voltar para casa com boas lembranças e muitas histórias para contar. É muito triste quando uma tragédia dessa acontece.

Já fiz o trekking no Circuito W e o trecho que Francisco fazia para chegar ao mirante é uma das pernas desse roteiro. O relevo é exigente nesse pedaço. A subida começa no início da trilha, logo depois do Refúgio Torres Central ou do Hotel Las Torres em direção ao Refúgio El Chileno (5,5 km), passa por ele e continua por mais 3 km até o Acampamento Torres. Desse ponto, quase 1 km para chegar à base das três pedras pontiagudas que formam as torres e onde se encontra um lago formado por água de degelo, o relevo é praticamente vertical em trilha não demarcada com pedras soltas e sem nenhuma vegetação para aliviar o calor. Para se ter uma ideia, o tempo previsto para esse trecho curto é de aproximadamente uma hora, mas pode ser mais, dependendo do condicionamento físico.

Veja a altimetria na imagem abaixo – observe o quanto é íngreme do Hotel Las Torres ao mirante (Mirador Las Torres), principalmente o final. Isso significa que estar preparado fisicamente (e se hidratar corretamente) é muito, muito importante.

Altimetria do Circuito W no Parque Nacional Torres del Paine - Infográfico: Andes Mountain Expediciones.

Altimetria do Circuito W – Infográfico: Andes Mountain Expediciones.

Assim, o total da caminhada de ida até as torres e de volta ao Refúgio Torres Central ou ao Hotel Las Torres é de 19 km. Isso, claro, considerando que o visitante foi de carro da entrada do parque em Laguna Amarga até o refúgio ou o hotel. Caso contrário, é preciso somar os km entre esses dois pontos também (7,5 km cada perna, 15 km ida e volta). Se tudo for feito a pé, temos 34 km bem exigentes.

(Já li relatos de pessoas que fizeram esse bate e volta em apenas um dia, muitas vezes sem nenhum preparo, porque “acharam” que era tranquilo e não se prepararam para ficar num refúgio ou num dos acampamentos para descansarem! Quase morreram de cansaço e a curtição ficou perto de zero.)

Do Refúgio El Chileno dá para avistar a ponta das torres - Foto: Amandina Morbeck.

Pontas das torres vistas do Refúgio El Chileno: o visual é estupendo, mas chegar até lá não é mamão com açúcar para a maioria dos visitantes  – Foto: Amandina Morbeck.

Condicionamento físico conta muito, sim

Para a equipe de resgate de Puerto Natales, a causa da morte de Francisco foi infarto fulminante. Se ele era jovem e não tinha antecedentes que indicassem problema cardíaco, a falta de condicionamento físico para a realização de um esforço tão grande pode ter contribuído para esse triste evento.

E aqui entra uma questão na qual sempre bato: não parta para uma atividade dessa sem preparo físico e também sem se alimentar e sem se hidratar corretamente. Vi muitas pessoas subindo em direção ao mirante sem água, por exemplo. E no verão, época da temporada de trekking lá, o calor castiga muito.

Por causa dos meus posts sobre o Circuito W, vira e mexe recebo mensagens de internautas me perguntando se tudo bem de fazerem o Circuito W sendo sedentários. E minha resposta é NÃO, NÃO É TUDO BEM! Pode ser que nada aconteça, pois imagino que muitas pessoas, muitas mesmo já fizeram esse trecho ou todo o circuito sem nenhum preparo, mas correram um risco muito grande. E podem ter se sentido mal sem que nada fosse divulgado por não ter chegado a final tão dramático como no caso do brasileiro.

Durante os quatro dias que passei dentro do parque, cruzando com pessoas de todos os lugares, vi algumas com a língua pra fora, bufando, carregando mais peso do que deveriam ou voltando no meio do caminho por sentirem que não iam conseguir, inclusive na trilha para o mirante Base das Torres. Assim como também encontrei pessoas até mais velhas com excelente preparo que passaram por mim, inclusive em subidas, como se estivessem caminhando no plano e sumiram de vista rapidamente.

Para transporte de mantimentos ao Refúgio El Chileno, só no lombo de cavalos - Foto: Amandina Morbeck.

Para transporte de mantimentos ao Refúgio El Chileno, só no lombo de cavalos – Foto: Amandina Morbeck.

O Parque Nacional Torres del Paine é inóspito e isolado

Sim, a natureza em Torres del Paine é das mais belas deste planeta, mas é preciso ter consciência de que cada visitante que está fazendo o Circuito W ou o Circuito O está por sua conta e risco, pois os guardas ficam em alguns lugares, sendo impossível cobrir todos os pontos do parque. Fora isso, pelas características naturais do lugar – pedras, rochas, rios de degelo, lagos gelados, quase zero de infraestrutura – e por ser tão inóspito, não há como haver socorro rápido lá. É tudo muito distante, muito isolado. Não há estradas para circulação de veículos dentro dele.

A entrega de mantimentos no Refúgio El Chileno, por exemplo, que fica no caminho para o mirante Base das Torres, acontece em lombo de cavalos, o que faz com que o acesso até ele só possa ser feito a pé ou a cavalo. Imagine se algo urgente e grave acontece, como foi o caso do Francisco Haddad. Não é má vontade de socorristas, nada disso. É que não tem como ser rápido. Sem contar que equipes técnicas – médico, paramédico, enfermeiro etc. – ficam em Puerto Natales, distante 110 km da entrada do parque por Laguna Amarga ou 101 km da entrada por Pudeto. E aí é preciso somar as distâncias a partir dessas entradas para os pontos dentro do parque.

Nessa placa, próximo do Refúgio El Chileno, a subida quase vertical até o mirante Las Torres chama a atenção - Foto: Amandina Morbeck.

Nessa placa, próximo do Refúgio El Chileno, a subida quase vertical até o mirante Las Torres chama a atenção. O visitante é alertado periodicamente sobre o que vai enfrentar – Foto: Amandina Morbeck.

Caminhadas “curtas”? Cuidado!

No trecho entre o Refúgio Paine Grande e a Geleira Grey, encontrei um grupo de brasileiros liderado por uma guia de turismo. Nele, pessoas mais velhas e algumas obesas seguiam em direção à geleira, uma caminhada “curta” de 11 km com altos e baixos e terreno com irregularidades.

Para participar dessa aventura, provavelmente todas assinaram um termo no qual isentaram a empresa de qualquer responsabilidade em relação às condições de saúde. Por outro lado, será que foram alertadas sobre o que realmente as esperavam? Ou será que algumas pessoas acabam encarando um desafio desse, com zero de condicionamento, achando que tudo bem, que não tem problema nenhum, que qualquer coisa tem alguém responsável para cuidar delas? Só que muitas vezes, se algo dá errado, principalmente no meio do nada, as chances de que seja resolvido com sucesso diminuem bastante.

Vale do Rio Ascencio, com a trilha serpenteando à esquerda, a mais ou menos 5 km do mirante Las Torres - Foto: Amandina Morbeck.

Vale do Rio Ascencio, com a trilha serpenteando a encosta à esquerda, a mais ou menos 5 km do mirante Las Torres – Foto: Amandina Morbeck.

Pesquise e prepare-se antes de se aventurar

Se você pretende fazer qualquer atividade ao ar livre, principalmente de longa duração, com peso nas costas e em terrenos acidentados, como é o caso de quem quer fazer o Circuito W ou o Circuito O em Torres del Paine, prepare-se muito.

Seja responsável e consciente. Faça pesquisa, trabalhe seu condicionamento, faça treinos começando com distâncias e exigência física menores e vá aumentando aos poucos. Não tenha pressa. Sua segurança e seu bem-estar são mais importantes do que qualquer outra coisa.

E nunca, nunca, nunca viaje sem seguro de viagem completo – peça uma cotação à Real Seguro Viagem, parceira do Viajando com Aman, clicando no banner abaixo:

Real Seguro Viagem - Viajando com Aman.

Deixe as preocupações e leve mais tranquilidade em sua bagagem.

Custa tão pouco e pode lhe ser extremamente útil. Falo com conhecimento de causa porque fui atropelada na Flórida em 2011 e, graças ao seguro, não tive uma despesa – embora tenha sido resgatada por paramédicos, levada ao hospital onde precisei fazer vários exames, como raios X e tomografia, e ficar internada em observação.

Leia também:
Morte súbita durante atividade física
Agendamento para acampamentos em Torres del Paine

Adquira nosso guia – clique na capa para saber mais

Clique na capa para acessar a página e saber mais sobre o guia.

Texto e fotos: Amandina Morbeck

Posts relacionados (clique nos títulos para acessá-los):

– Finalmente, o Circuito W em Torres del Paine, Chile

– Como organizei o trekking no Circuito W em Torres de Paine, Chile

– O que levei para fazer o trekking no Circuito W em Torres del Paine, Chile

– Como chegar a Torres del Paine, Chile

– Cueva del Milodón, Puerto Natales, Chile

– Isla Magdalena, Punta Arenas, Chile

– Puerto Natales e Punta Arenas, Chile

Restaurantes, bar e café que recomendo na Patagônia Chilena:

– Afrigonia – Puerto Natales, Chile

– Angelica’s – Puerto Natales, Chile

– El Living – Puerto Natales, Chile

– Baguales – Puerto Natales, Chile

– Café Ñhandu – Puerto Natales, Chile

– La Marmita – Punta Arenas, Chile


Comments

comments

Comente este post

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *